Por que o Mercado de TI se tornou uma Ficção Científica Mal Escrita
No abismo entre o que se lê nas manchetes e o que se vive nos sites de vagas.
Como estudante e observador do sistema, noto que o mercado brasileiro de tecnologia transformou-se em uma contradição gigantesca.
Dizem que o setor está "aquecido", no entanto, para quem está no campo de batalha, buscado uma oportunidade, o clima é de um inverno rigoroso, e quase sempre esperam que quem procura uma vaga, aceite resignadamente a situação. E o que a área de TI espera dos candidatos.
As empresas não buscam profissionais; buscam o "Capitão Nemo": alguém capaz de operar máquinas complexas, em isolamento total, com recursos próprios e prontidão imediata.
O discurso da escassez virou o álibi perfeito para processos seletivos que se assemelham a interrogatórios, e com exigências de Sênior para remunerações abaixo de Júnior se considerar empresas menores.
Preveem o futuro com otimismo técnico, mas no RH moderno a distopia é uma realidade. Uma vaga de entrada hoje exige minimo 3 anos de experiencia, que você seja canivete suíço digital, domínio de tecnologias emergentes ( em algum casos pedindo mais anos de experiencia em dada tecnologia que a própria tem ) e isso para quem está começando, sem falar na idade.
É uma lista de desejos de um autor de fantasia. O filtro automático e os algoritmos de recrutamento eliminam o talento promissor antes mesmo de ele ter chances de se desenvolver.
Os profissionais qualificados, com maturidade técnica, abandonam o cenário nacional. São absorvidos pelo mercado externo, ganhando em moeda forte e trabalhando sob metodologias que respeitam a lógica.
O que sobra no Brasil? Uma pressão esmagadora sobre os que ficam e uma barreira intransponível para quem tenta entrar.
A Inteligência Artificial não veio para roubar o seu lugar, mas ela certamente aumentou o peso da carga. Agora, espera-se que o desenvolvedor produza mais, mais rápido e com menos suporte.
No Brasil é uma consequência lógica de exportação de profissionais em formação.
O profissional brasileiro financia a própria especialização e a empresa estrangeira colhe os frutos, simplesmente porque o mercado nacional se recusa a pagar parte do preço da formação profissional que inclui contratar profissionais sem experiencia ou vindos de transição de carreira, para que eles tenham tempo de ganhar experiência.
A ilusão fantasiosa é pensar que depois de todo um investimento em tempo, esforço e dinheiro gastos do próprio bolso em diplomas, certificações cobradas em dólar para criar um portfólio que atenda a lista de desejos do empregadores típicos de hoje, que esse profissional vai trabalhar no Brasil, na primeira oportunidade ele vai bater asas para primeira vaga internacional que aparecer, deixando o mercado com profissionais em transição de carreira, estagiários e juniors que não são valorizados.
O "apagão" não é falta de gente; é a recusa em investir em gente. E o preço disso poderá ser a insolvência tecnológica de empresas nacionais devido a fuga de talentos para o mercado externo.



