Ser mulher na tecnologia: entre o sonho neon e o caos real
Dizem que trabalhar com tecnologia é o futuro. Código, inovação, salários altos, home office, aquele quarto estiloso com LED colorido e café sempre quente. O famoso dream.
Agora deixa eu te contar a versão sem filtro.
Ser mulher na tecnologia é, muitas vezes, ser foda — e cansativo pra caralho.
Antes de tudo, deixa eu me apresentar
Sou mulher. Sou professora. Sou mãe. Trabalho com tecnologia. Dou suporte técnico. Estudo. Cuido de casa. Cuido de gente. Cuido de sistemas — e, muitas vezes, de pessoas também.
Nem sempre nessa ordem. Quase nunca com silêncio.
E mesmo assim, todos os dias, alguém ainda olha e pensa que eu estou aqui por acaso.
O destaque que vem com um asterisco
Hoje a gente vê mais mulheres ganhando espaço, palestrando, liderando times, assinando projetos importantes. E isso é incrível. De verdade. Mas quase sempre vem acompanhado de um asterisco invisível:
“Ela é boa para uma mulher.”
O destaque existe, mas a desconfiança também. A gente precisa provar competência duas, três, dez vezes. Errar dói mais. Errar custa mais. E às vezes nem é erro — é só alguém esperando a menor brecha pra confirmar um preconceito antigo.
A síndrome do “acho que não dou conta”
Mesmo estudando, entregando, resolvendo pepino que ninguém mais quis pegar… bate. Forte.
A sensação de ser deixada de lado. De não ser ouvida na reunião. De ver sua ideia ignorada e reaparecer cinco minutos depois na boca de outra pessoa.
E aí vem o pensamento perigoso:
“Talvez isso não seja pra mim.”
Spoiler: é.
A vontade de desistir aparece. Não porque falta capacidade, mas porque sobra cansaço.
Entre um código e outro, a vida real
Enquanto o código não compila, a vida também não pausa. Tem filho. Tem casa. Tem roupa pra lavar. Tem comida pra fazer. Tem estudo. Tem boleto. Tem culpa — porque parece que nunca estamos fazendo o suficiente em nenhum papel.
O mercado ama a imagem do programador que vira noites codando, vive de energético e não tem mais nenhuma obrigação além do próprio teclado. Mas essa imagem raramente nos contempla.
A gente programa com uma criança chamando, um prazo estourando, a cabeça dividida entre mil abas abertas — no navegador e na mente.
O setup cheio de luzes vs. o caos
O sonho é bonito.
Mas a realidade é caótica.
É cair do cavalo quando você percebe que tecnologia também é política, ego, disputa, ambiente hostil e silêncio constrangedor quando você se impõe.
É entender que amar tecnologia não significa romantizar o sofrimento.
Desistir não é uma opção (mesmo quando parece)
A gente pensa em desistir. Mas não desiste.
Não por heroísmo. Mas por teimosia.
Porque quando dizem que não é nosso lugar, a gente fica. Quando tentam nos diminuir, a gente cresce. Quando o sistema empurra pra fora, a gente aprende a hackear o sistema.
Cada mulher que permanece na tecnologia abre espaço — mesmo sem perceber — pra outras ficarem.
Não é sobre ser forte o tempo todo
Ser mulher na tecnologia não é sobre aguentar tudo calada. É sobre falar. É sobre falhar. É sobre pedir ajuda. É sobre se reconhecer cansada e, ainda assim, continuar.
A gente não precisa ser exceção. A gente precisa ser regra.
E enquanto isso não acontece, seguimos. Código por código. Dia por dia. Mesmo no caos.
Porque sim, é difícil. Mas também é nosso.



