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Thiago Cardoso
Thiago Cardoso26/01/2026 14:39
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O mercado de tecnologia no Brasil virou uma contradição ambulante

    Existe algo profundamente errado no mercado de tecnologia no Brasil e quem está tentando entrar ou se manter nele já percebeu.

    Nunca se falou tanto em “falta de profissionais de TI”, “apagão de talentos” e “mercado aquecido”. Ao mesmo tempo, as vagas estão cada vez mais escassas, os processos seletivos mais longos e as exigências mais irreais. O resultado é um paradoxo:

    👉 salários de júnior com exigências de sênior.

    Não é percepção. É estrutura.

    A mentira do “mercado aquecido”

    O mercado de tecnologia não acabou, mas também está longe da fantasia vendida nos últimos anos. Ele cresce, sim porém de forma desigual, concentrada e excludente.As empresas dizem que faltam profissionais, mas o que realmente falta são profissionais prontos, experientes, baratos e imediatos. Não existe disposição real para formar talentos. O discurso da escassez serve mais como justificativa para:

    • inflar descrições de vaga
    • reduzir salários
    • sobrecarregar quem entra

    Hoje, uma vaga “júnior” pede:

    • 2 a 3 anos de experiência
    • domínio de múltiplas stacks
    • conhecimento em cloud, DevOps, IA, metodologias ágeis
    • soft skills de liderança

    Tudo isso para pagar um salário que, muitas vezes, não acompanha nem a responsabilidade, nem a complexidade técnica.

    Requisitos irreais viraram regra

    As descrições de vaga deixaram de ser um retrato do cargo e viraram uma lista de desejos. O problema é que essa lista não é tratada como opcional no processo seletivo.

    O filtro automático elimina bons candidatos. O RH rejeita perfis promissores. E o gestor reclama que “ninguém é bom o suficiente”.

    O mercado criou um cenário onde:

    • o iniciante não consegue entrar
    • o pleno já está sobrecarregado
    • o sênior migra para fora (ou vira PJ precarizado)

    É um ciclo vicioso.

    Globalização e fuga dos profissionais experientes

    Profissionais realmente qualificados não ficam presos ao mercado nacional. Eles são absorvidos por empresas estrangeiras, muitas vezes ganhando em dólar, com menos burocracia e mais valorização técnica.

    O efeito colateral é óbvio:

    • menos seniors disponíveis no Brasil
    • mais pressão sobre quem fica
    • empresas tentando “economizar” contratando abaixo do nível necessário

    E adivinha quem paga a conta? Quem está tentando crescer na carreira.

    A IA não acabou com as vagas, ela aumentou a régua.

    A Inteligência Artificial não eliminou o trabalho em tecnologia, mas aumentou brutalmente o nível de exigência. Agora não basta saber o básico. Espera-se que o profissional:

    • use IA
    • entenda IA
    • produza mais com menos
    • entregue mais rápido

    Tudo isso sem que o salário acompanhe essa escalada de complexidade.

    O problema não é falta de talento. É falta de estratégia.

    O Brasil não sofre por ausência de gente capaz. Sofre por:

    • empresas que não investem em formação
    • recrutamento desconectado da realidade
    • expectativas desalinhadas com orçamento
    • romantização da sobrecarga

    Enquanto isso, o discurso segue o mesmo: “o mercado está aquecido”.

    Está aquecido para poucos.

    Conclusão: quem entra hoje precisa jogar outro jogo

    Entrar no mercado de tecnologia em 2026 exige muito mais do que boa vontade ou diploma. Exige:

    • portfólio real
    • projetos práticos
    • networking estratégico
    • resiliência emocional

    E, principalmente, clareza: não é um mercado fácil, nem justo, nem meritocrático como foi vendido.

    A tecnologia continua sendo uma área promissora mas não para quem acredita em propaganda.

    É para quem entende o jogo, se posiciona bem e não aceita passivamente exigências absurdas travestidas de oportunidade.

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    Comentarios (2)

    MC

    Márcio Cavalcante - 26/01/2026 18:55

    Matéria muito realista e esclarecedora.

    Reforça o que assisti em um canal do YouTube — acredito que tenha sido na BBC Brasil ou no Canal Jornalismo TV Cultura. A reportagem mostrava justamente que as empresas criticam a suposta falta de interesse da nova geração pelo trabalho, mas, ao mesmo tempo, não oferecem vagas para iniciantes, impossibilitando que os jovens entrem no mercado e adquiram experiência profissional. No caso específico, a IA está eliminando justamente essas posições mais básicas e administrativas. O foco é economizar e gerar lucro. O mesmo mercado que critica os jovens não oferece as oportunidades necessárias para a aquisição de experiência e o crescimento profissional de quem está começando.

    É como cobrar que a pessoa seja um nadador experiente, mas não deixa a pessoa entrar na piscina para aprender.

    Algumas matérias:

    https://exame.com/insight/contrata-se-com-experiencia-a-ia-ja-esta-reduzindo-empregos-entre-os-mais-jovens/p

    https://www.dailymotion.com/video/x9xawg2



    Victor Marques
    Victor Marques - 26/01/2026 15:58

    Excelente descrição do mercado atual, cirúrgico nos detalhes e totalmente de acordo com o que o mercado está oferecendo. Concordo contigo que toda essa propaganda de vagas acaba sendo apenas para venderem cursos de TI, pois a escassez vemos que não existe realmente, quando enfrentamos uma concorrência absurda mesmo para as vagas mais exigentes.

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