Dubai, o Hijab e a leitura cultural antes do julgamento
Antes de qualquer coisa, escrevo este artigo com um cuidado importante: não tenho aqui propósito proselitista. Não pretendo convencer ninguém a adotar uma religião, uma prática ou uma forma de vestir. Meu objetivo é cultural e esclarecedor. Depois de assistir ao vídeo Hacking Dubai Tech, na DIO, fiquei pensando em como muitas vezes olhamos para países árabes e muçulmanos com lentes muito simplificadas, como se toda prática local fosse automaticamente sinal de imposição, repressão ou atraso. Esse tipo de leitura apressada não ajuda a compreender o mundo; ao contrário, empobrece nossa percepção sobre culturas complexas, antigas e diversas.
Dubai é um exemplo interessante justamente porque mistura tradição islâmica, cultura árabe, negócios globais, turismo, tecnologia e presença massiva de estrangeiros. A cidade é reconhecida como um centro internacional de negócios, finanças, turismo e comércio, e sua população expatriada contribui para uma vida urbana bastante multicultural. A própria Britannica descreve Dubai como uma espécie de “melting pot” do Oriente Médio, onde convivem mesquitas, igrejas e templos hindus, em um ambiente geralmente tolerante no cotidiano social. (Encyclopedia Britannica) Os Emirados Árabes Unidos também informam oficialmente que há mais de 200 nacionalidades vivendo e trabalhando no país, com a comunidade expatriada superando numericamente os nacionais emiradenses. (Ministério das Relações Exteriores)
Por isso, quando vemos mulheres usando hijab, shayla, abaya, niqab ou outras vestimentas tradicionais em Dubai, precisamos tomar cuidado para não reduzir tudo a uma única explicação. O hijab, em seu uso mais conhecido no Ocidente, é o lenço usado por algumas mulheres muçulmanas para cobrir os cabelos; em sentido mais amplo, também se relaciona à ideia de modéstia no vestir e no comportamento. (Encyclopedia Britannica) Já a burca é uma peça mais fechada, cobrindo corpo e rosto, geralmente com uma tela na altura dos olhos, sendo muito associada ao Afeganistão e a algumas regiões da Ásia Central e do Sul, embora não deva ser confundida com o hijab comum. (Encyclopedia Britannica)
Uma das primeiras explicações culturais que se costuma apresentar para essas roupas vem do ambiente. Em regiões áridas, com sol forte, poeira, vento e longas travessias no deserto, cobrir o corpo não é apenas uma escolha estética ou religiosa: também pode ser uma forma prática de proteção. A cultura beduína, ligada à vida nômade no deserto, teve grande influência nos costumes da Península Arábica e dos Emirados. Essa herança do deserto moldou hábitos de hospitalidade, sobrevivência, etiqueta e proteção corporal. (Field Support) Nesse sentido, antes mesmo de qualquer discussão religiosa, há um fator ambiental e histórico que ajuda a entender por que roupas amplas e protetoras se tornaram comuns em muitas sociedades da região.
Uma segunda leitura cultural está ligada à ideia de honra, status e proteção social. Em sociedades tribais antigas, a mulher pertencente a uma família de prestígio, a um clã respeitado ou a uma linhagem nobre podia ser vista como alguém cuja presença exigia reserva, distinção e proteção. Vestir-se de modo mais recatado, cobrir-se ou preservar-se do olhar público podia funcionar como sinal de posição social. Essa interpretação não explica tudo, mas ajuda a perceber que a vestimenta feminina no mundo árabe não nasceu apenas de uma regra religiosa isolada; ela também se relaciona com estruturas sociais, familiares e simbólicas muito antigas.
A terceira explicação, talvez a mais importante dentro da tradição islâmica, vem do próprio texto religioso e de sua interpretação histórica. O Alcorão, na surata Al-Ahzab 33:59, orienta o Profeta Muhammad — que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele — a dizer às suas esposas, filhas e às mulheres crentes que aproximem sobre si seus mantos, para que sejam reconhecidas e não sejam importunadas. (Quran.com) Esse versículo é frequentemente citado nas discussões sobre o hijab, o jilbab e a modéstia feminina no Islã. Ele mostra que, no contexto islâmico clássico, a vestimenta não aparece apenas como ornamento, mas como sinal de dignidade, pertencimento comunitário e proteção social.
Naturalmente, essa explicação precisa ser tratada com maturidade. Ao longo da história, diferentes sociedades muçulmanas interpretaram esses princípios de formas variadas. Em alguns lugares, o costume se expressa como hijab; em outros, como abaya; em outros, como niqab; e, em contextos mais rígidos, como burca. O erro está em colocar tudo no mesmo pacote. Uma mulher usando hijab em Dubai, uma mulher usando niqab na Arábia, uma mulher usando burca no Afeganistão e uma muçulmana vivendo nos Estados Unidos com seu lenço por escolha pessoal não representam exatamente a mesma realidade social.
Também é importante lembrar que nem todo país muçulmano vive a religião da mesma forma. Dubai, embora faça parte de um país de maioria muçulmana, é uma cidade globalizada, tecnológica, turística e economicamente aberta. A presença de indianos, paquistaneses, europeus, africanos, filipinos e muitas outras comunidades cria um ambiente social muito mais diverso do que a imagem simplificada que muitas pessoas têm do “mundo árabe”. Isso não significa que não existam regras sociais, limites culturais ou expectativas de recato em certos espaços; significa apenas que a realidade é mais complexa do que a caricatura.
Quando se fala em imposição, é necessário fazer distinções. Existem contextos em que governos, grupos extremistas ou estruturas sociais obrigam mulheres a seguir determinados códigos de vestimenta. O caso de Malala Yousafzai é lembrado mundialmente não por causa do hijab em si, mas por sua defesa do direito das meninas à educação diante da violência do Taliban; ela foi atacada em 2012 e depois se tornou a mais jovem laureada com o Nobel da Paz. (NobelPrize.org) Esse tipo de extremismo não pode ser usado para definir automaticamente toda mulher muçulmana, todo país muçulmano ou toda prática islâmica de modéstia.
Por outro lado, também existe uma realidade que muitos ocidentais ignoram: inúmeras mulheres muçulmanas usam o hijab por decisão própria, por fé, identidade, pudor, disciplina espiritual, pertencimento cultural ou simplesmente porque aquilo faz sentido para elas. Para essas mulheres, o hijab não é necessariamente uma prisão; pode ser uma linguagem de dignidade, uma escolha ética, uma forma de se apresentar ao mundo segundo seus próprios valores. Não cabe a nós romantizar nem demonizar. Cabe compreender, perguntar, escutar e evitar julgamentos prontos.

A meu ver, o ponto central é este: quando olhamos para Dubai, para os Emirados ou para sociedades árabes e muçulmanas, precisamos abandonar a ideia de que toda diferença cultural é sinal de opressão. Algumas práticas podem, sim, ser discutidas criticamente; nenhuma cultura está acima da análise. Mas criticar com honestidade exige primeiro compreender. E compreender exige separar religião, tradição, clima, história, política, colonialismo, mídia, escolha pessoal e imposição social.
Assim, quando vejo mulheres usando hijab em Dubai, não parto imediatamente da ideia de obrigação. Prefiro enxergar um conjunto de camadas históricas: o deserto que ensina a proteger o corpo, os clãs que construíram símbolos de honra, o Islã que deu sentido espiritual à modéstia, e a modernidade global que permite a convivência de diferentes estilos de vida no mesmo espaço urbano. É nessa interseção que Dubai se torna culturalmente interessante: uma cidade muçulmana, árabe, internacional e tecnológica, onde tradição e futuro caminham lado a lado.
No fim, talvez a maior lição seja esta: uma roupa pode ser apenas uma roupa para quem olha de fora, mas pode ser memória, fé, identidade, proteção, costume, escolha e pertencimento para quem a veste. Antes de julgar o hijab, a abaya ou qualquer vestimenta cultural, vale perguntar o que aquela peça significa para aquela mulher, naquele lugar, naquela história. Esse é o caminho mais honesto para quem deseja entender o outro sem apagar sua dignidade.
- https://www.youtube.com/watch?v=1gRthwo_v4o
- https://www.youtube.com/watch?v=_J5bDhMP9lQ
- Há muitos outros vídeos que mulheres falam sobre Hijab, em especial no TEDx



