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Mirna Silva
Mirna Silva16/02/2026 12:54
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Inteligência Artificial na Saúde Pública no Brasil: Evidências, Aplicações e Desafios

  • #IA Agents

A Inteligência Artificial (IA) tem se tornado uma tecnologia estratégica para sistemas de saúde em todo o mundo. No Brasil, com seu sistema de saúde público universal (Sistema Único de Saúde – SUS), a IA desponta como ferramenta para apoiar diagnósticos, vigilância epidemiológica, gestão de recursos e tomada de decisão. Este artigo sintetiza o estado da arte da IA na saúde pública brasileira, apresentando aplicações práticas, desafios metodológicos, implicações éticas e perspectivas futuras, com referências científicas completas.

1. Introdução

A IA refere-se a métodos computacionais que capacitam máquinas a realizar tarefas complexas, como reconhecimento de padrões e predição baseada em dados. No contexto da saúde pública, técnicas como aprendizado de máquina, aprendizado profundo e métodos de aprendizado federado/tansferido permitem análise de grandes volumes de dados clínicos ou populacionais para apoiar políticas e práticas em saúde.

2. Aplicações da IA na Saúde Pública Brasileira

2.1 Vigilância Epidemiológica e Prevenção

Modelos preditivos baseados em IA têm sido explorados para prever eventos de saúde, como visitas hospitalares por doenças respiratórias em crianças, combinando dados clínicos, poluição do ar e fatores climáticos com algoritmos de aprendizado de máquina. Um estudo realizado na Região Metropolitana de São Paulo utilizou um algoritmo XGBoost para prever a demanda hospitalar pediátrica, demonstrando a viabilidade de IA para vigilância e planejamento hospitalar.

Além disso, revisões recentes destacam o uso crescente de IA na atenção primária à saúde, incluindo estimativas preditivas e análise de determinantes de cobertura universal de saúde.

2.2 Diagnóstico e Rastreamento

Uma revisão sistemática sobre ferramentas de IA para diagnóstico e rastreamento em ambientes com recursos limitados no Brasil identificou 25 estudos focados em especialidades como oftalmologia e doenças infecciosas, com uso predominante de algoritmos de aprendizado de máquina. Os resultados indicaram uma acurácia combinada expressiva (AUC ≈ 0,83), sensibilidade de 0,81 e especificidade de 0,74 nos modelos validados.

Esses achados demonstram que sistemas de IA aplicados ao diagnóstico assistido por computador podem alcançar desempenho comparável a métodos tradicionais, ainda que a validação secundária em populações independentes continue sendo limitada.

2.3 Estratégias de Aprendizado Adaptativas

Técnicas como Transfer Learning e Federated Learning têm sido apontadas como soluções promissoras para superar desafios de escassez de dados e proteger a privacidade em sistemas de saúde amplos e heterogêneos como o SUS. Essas abordagens permitem treinar modelos colaborativos sem necessidade de centralizar grandes volumes de dados sensíveis, o que é particularmente relevante em países com desigualdades regionais e restrições de infraestrutura.

3. Desafios para a Implementação da IA no SUS

3.1 Qualidade e Integração de Dados

A eficácia dos algoritmos de IA depende de dados completos, padronizados e interoperáveis — uma condição ainda em desenvolvimento nas bases de dados públicos brasileiras. A fragmentação e inconsistência nos registros representam uma barreira significativa para a generalização dos modelos.

3.2 Regulação, Privacidade e Ética

O uso de IA na saúde exige atenção rigorosa à ética e à privacidade dos dados dos pacientes. Pesquisadores brasileiros ressaltam que a aplicação de IA na saúde deve estar alinhada à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que regula o tratamento de dados pessoais sensíveis e cria exigências para governança de dados em saúde.

3.3 Infraestrutura e Capacitação

A adoção eficaz de IA no SUS requer não apenas tecnologia, mas também infraestrutura computacional adequada e profissionais capacitados em ciência de dados e análise de grandes bases de dados de saúde. Em muitos municípios, a insuficiência de recursos tecnológicos limita a implementação de soluções avançadas.

4. Reflexões Éticas e Políticas Públicas

Pesquisadores brasileiros alertam para a necessidade de políticas públicas que considerem não apenas a inovação tecnológica, mas também a equidade no acesso à IA na saúde, proteção de dados e transparência na tomada de decisão automatizada. Um debate recente publicado com foco em princípios éticos destaca a importância de algoritmos justos, transparentes e respeitosos da autonomia e privacidade dos pacientes.

5. Perspectivas Futuras

A literatura sugere que:

  • A adoção de métodos colaborativos e descentralizados (Federated Learning) pode reduzir desigualdades regionais e promover inovação responsável.
  • A integração de IA com políticas públicas de saúde deve considerar estruturas regulatórias robustas e abordagens multidisciplinares envolvendo gestores, clínicos e especialistas em ciência de dados.
  • A capacitação de profissionais de saúde em uso ético de IA será crítica para maximizar os benefícios e minimizar riscos.

6. Conclusão

A IA representa uma fronteira promissora para reforçar a capacidade do SUS de responder às demandas de saúde pública no Brasil. Evidências científicas indicam aplicações eficazes em vigilância epidemiológica, diagnóstico assistido e sistemas de apoio à decisão. Contudo, desafios relativos a dados, regulação, infraestrutura e equidade precisam ser enfrentados para que os benefícios sejam plenamente realizados.

Referências Científicas Completas

  1. Dourado, D. de A., & Aith, F. M. A. (2022). The regulation of artificial intelligence for health in Brazil begins with the General Personal Data Protection Law. Revista de Saúde Pública, 56, 80. https://doi.org/10.11606/s1518-8787.2022056004461
  2. Mancini, L. M., Torres, L. E. V., Coelho, J. A. P. de M., Fonseca, N. B., Cordeiro, P. F. D., Cavalcante, S. S. N., & Dermeval, D. (2025). Diagnostic and Screening AI Tools in Brazil’s Resource-Limited Settings: Systematic Review. JMIR AI, 4:e69547. https://doi.org/10.2196/69547
  3. Tonaco Borges, F., Machado, G. do M., Santana, M. A. de, Sancho, K. A., Araújo de França, G. V., dos Santos, W. P., & Siqueira, C. E. G. (2026). LLM-Assisted Scoping Review of Artificial Intelligence in Brazilian Public Health. International Journal of Environmental Research and Public Health, 23(1), 81. https://doi.org/10.3390/ijerph23010081
  4. Cabral-Miranda, W., Beloni, C., Lora, F., Afonso, R., Araújo, T., & Fernandes, F. (2025). Artificial intelligence platform to predict children’s hospital care for respiratory disease. Journal of Global Health,15:04207. https://doi.org/10.7189/jogh.15.04207
  5. Botero, D. A. M., Bonfim, R., Fonseca, K. F., Andrade-Gonçalves, R. L. P., Monroe, A. A., & Morales, F. (2025). Artificial intelligence in Brazilian Primary Health Care: scoping review. Revista Brasileira de Enfermagem, 78(suppl 3):e20240363. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2024-0363
  6. Santana, G. A. de, Vieira, E. L. de C., Duarte, Z., & Mello, R. C. (2024). Inteligência Artificial na saúde pública do Brasil: princípios éticos aplicados à privacidade e construção de algoritmos. Revista Fontes Documentais, 6. https://doi.org/10.9771/rfd.v6i0.60133
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