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Kamiah Pedra
Kamiah Pedra10/02/2026 13:05
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Ser mulher na tecnologia: entre o sonho neon e o caos real

    Dizem que trabalhar com tecnologia é o futuro. Código, inovação, salários altos, home office, aquele quarto estiloso com LED colorido e café sempre quente. O famoso dream.

    Agora deixa eu te contar a versão sem filtro.

    Ser mulher na tecnologia é, muitas vezes, ser foda — e cansativo pra caralho.

    Antes de tudo, deixa eu me apresentar

    Sou mulher. Sou professora. Sou mãe. Trabalho com tecnologia. Dou suporte técnico. Estudo. Cuido de casa. Cuido de gente. Cuido de sistemas — e, muitas vezes, de pessoas também.

    Nem sempre nessa ordem. Quase nunca com silêncio.

    E mesmo assim, todos os dias, alguém ainda olha e pensa que eu estou aqui por acaso.

    O destaque que vem com um asterisco

    Hoje a gente vê mais mulheres ganhando espaço, palestrando, liderando times, assinando projetos importantes. E isso é incrível. De verdade. Mas quase sempre vem acompanhado de um asterisco invisível:

    “Ela é boa para uma mulher.”

    O destaque existe, mas a desconfiança também. A gente precisa provar competência duas, três, dez vezes. Errar dói mais. Errar custa mais. E às vezes nem é erro — é só alguém esperando a menor brecha pra confirmar um preconceito antigo.

    A síndrome do “acho que não dou conta”

    Mesmo estudando, entregando, resolvendo pepino que ninguém mais quis pegar… bate. Forte.

    A sensação de ser deixada de lado. De não ser ouvida na reunião. De ver sua ideia ignorada e reaparecer cinco minutos depois na boca de outra pessoa.

    E aí vem o pensamento perigoso:

    “Talvez isso não seja pra mim.”

    Spoiler: é.

    A vontade de desistir aparece. Não porque falta capacidade, mas porque sobra cansaço.

    Entre um código e outro, a vida real

    Enquanto o código não compila, a vida também não pausa. Tem filho. Tem casa. Tem roupa pra lavar. Tem comida pra fazer. Tem estudo. Tem boleto. Tem culpa — porque parece que nunca estamos fazendo o suficiente em nenhum papel.

    O mercado ama a imagem do programador que vira noites codando, vive de energético e não tem mais nenhuma obrigação além do próprio teclado. Mas essa imagem raramente nos contempla.

    A gente programa com uma criança chamando, um prazo estourando, a cabeça dividida entre mil abas abertas — no navegador e na mente.

    O setup cheio de luzes vs. o caos

    O sonho é bonito.

    Mas a realidade é caótica.

    É cair do cavalo quando você percebe que tecnologia também é política, ego, disputa, ambiente hostil e silêncio constrangedor quando você se impõe.

    É entender que amar tecnologia não significa romantizar o sofrimento.

    Desistir não é uma opção (mesmo quando parece)

    A gente pensa em desistir. Mas não desiste.

    Não por heroísmo. Mas por teimosia.

    Porque quando dizem que não é nosso lugar, a gente fica. Quando tentam nos diminuir, a gente cresce. Quando o sistema empurra pra fora, a gente aprende a hackear o sistema.

    Cada mulher que permanece na tecnologia abre espaço — mesmo sem perceber — pra outras ficarem.

    Não é sobre ser forte o tempo todo

    Ser mulher na tecnologia não é sobre aguentar tudo calada. É sobre falar. É sobre falhar. É sobre pedir ajuda. É sobre se reconhecer cansada e, ainda assim, continuar.

    A gente não precisa ser exceção. A gente precisa ser regra.

    E enquanto isso não acontece, seguimos. Código por código. Dia por dia. Mesmo no caos.

    Porque sim, é difícil. Mas também é nosso.

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    Comments (5)
    Carolina Togni
    Carolina Togni - 10/02/2026 20:14

    Muito real! :(

    Custódio Junior
    Custódio Junior - 10/02/2026 16:00

    Olá, Kamiah, tudo bem?

    O texto ficou grande, mas foi de coração

    Apesar de ser homem — mas também marido, irmão e filho — e não vivenciar exatamente o que uma mulher enfrenta no dia a dia, fiquei genuinamente impactado pela forma como você destacou cada ponto do artigo. Sua abordagem é clara, firme e necessária.

    Ultimamente tenho consumido muitos podcasts que colocam mulheres no centro das discussões, não apenas como participantes, mas como protagonistas. Data Hackers e Hipsters Ponto Tech, por exemplo, trazem convidadas extremamente qualificadas, o que reforça uma realidade incômoda: competência nunca foi o problema — o desafio ainda está no reconhecimento e no espaço concedido.

    Observando esses conteúdos e o dia a dia, fica evidente o quanto a sociedade ainda precisa evoluir na forma como enxerga mulheres à frente de equipes, projetos e decisões. Vejo isso também em casa, como marido, ao acompanhar a rotina intensa da minha esposa — e por isso faço questão de dividir responsabilidades (não me garanto muito no almoço, mas as vasilhas e as roupas estão sempre em dia 😄).

    Uma frase que me marcou muito ao ouvir o Data Hackers foi: “a mulher precisa se explicar e provar mais do que os homens”. Nesse mesmo episódio, uma das participantes relatou que, mesmo sendo a melhor da turma no curso técnico, ouvia comentários depreciativos. Mais tarde, ao estudar Análise de Sentimentos no ensino superior, escutou que havia escolhido essa área “por ser mulher”.

    Relatos como esses mostram que o problema não está na capacidade, mas nos preconceitos ainda enraizados. Por isso, parabéns pela postagem — reflexões como a sua são essenciais para provocar mudança e acelerar a evolução que a sociedade tanto precisa.

    Raiany Souza
    Raiany Souza - 10/02/2026 14:41

    É a dura realidade de nós mulheres.

    Fernanda Ferreira
    Fernanda Ferreira - 10/02/2026 14:40

    Ótimo artigo! Uma visão necessária e muito real para nós, mulheres, que queremos começar (ou continuar) na área de tecnologia. Me identifiquei demais com a forma como você trouxe o contraste entre o “sonho” e o caos real do dia a dia.

    Ingrid Machado
    Ingrid Machado - 10/02/2026 13:54

    Excelente, texto super necessário!

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