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Carlos Pinheiro
Carlos Pinheiro27/05/2026 19:51
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Soberania digital: por que jovens desenvolvedores brasileiros precisam olhar para esse mercado

    Falar sobre prestação de serviços no Brasil é tocar em um tema complexo. Quem trabalha com tecnologia sabe que vender software, prestar suporte, manter sistemas, participar de licitações ou oferecer soluções SaaS não é simples. Há burocracia, impostos, competição pesada, exigências jurídicas e, muitas vezes, uma cultura de compra que prefere contratar marcas estrangeiras conhecidas em vez de apostar em soluções nacionais. Mas existe um ponto que precisamos discutir com mais seriedade: a soberania digital do Brasil.

    Soberania digital não significa rejeitar toda tecnologia estrangeira. Isso seria ingênuo. O problema não é usar ferramentas internacionais, mas depender delas de forma estrutural, sem estratégia, sem alternativas nacionais e sem domínio sobre dados, infraestrutura, código, contratos e conhecimento técnico. Quando um país não controla suas plataformas digitais essenciais, ele passa a depender de decisões comerciais, políticas e jurídicas tomadas fora de seu território.

    Os números mostram que esse debate não é pequeno. O levantamento citado pelo Jornal da USP, com base em estudo da USP e da UnB, aponta que o setor público brasileiro, nas esferas federal, estadual e municipal, contratou pelo menos R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem, segurança digital e soluções de TIC entre 2014 e 2025. Apenas entre junho de 2024 e junho de 2025, os gastos com produtos tecnológicos internacionais passaram de R$ 10,35 bilhões. O próprio estudo alerta que esse valor pode ser maior, porque há fragmentação nas bases de dados e muitos contratos são feitos por intermediários. (Jornal da USP)

    Esse ponto é fundamental: não estamos falando apenas do governo federal. Estados e municípios também compram software, contratam plataformas de gestão, locam sistemas, assinam serviços em nuvem, usam ERPs públicos ou privados, pagam por e-mail corporativo, videoconferência, segurança, banco de dados, armazenamento e atendimento digital ao cidadão. Em muitos casos, a compra aparece como “prestação de serviço”, “locação de software”, “SaaS”, “suporte”, “licenciamento” ou “solução integrada”, o que dificulta enxergar quanto dinheiro realmente sai do país ou fortalece cadeias estrangeiras.

    No recorte de janeiro de 2023 a junho de 2025, o estudo mencionado pela USP aponta R$ 5,97 bilhões em licenças de software, R$ 9 bilhões em soluções de nuvem e R$ 1,91 bilhão em segurança digital nas três esferas do setor público. Entre os fornecedores de maior peso aparecem Microsoft, Oracle, Google e Red Hat. A Microsoft aparece com R$ 3,27 bilhões no ComprasNet, enquanto Oracle, Google e Red Hat aparecem com volumes bilionários no PNCP desde 2022. (Jornal da USP)

    O site Soberania Digital, indicado como referência para este artigo, apresenta um painel público de transparência voltado a gastos do Brasil com tecnologia proprietária estrangeira. Nos resultados indexados, o painel aponta um valor agregado de R$ 193,5 bilhões e, em seu recorte por estados, São Paulo aparece com R$ 7,2 bilhões em 838 contratos envolvendo fornecedores como Microsoft, Oracle, SAP, Google e IBM. Esses números precisam ser lidos com cuidado, porque diferentes painéis podem usar metodologias, períodos e filtros distintos, mas eles reforçam a mesma mensagem: existe uma dependência econômica relevante em torno de software e serviços digitais estrangeiros. (Soberania Digital)

    A questão fica ainda mais séria quando olhamos para nuvem e SaaS. Antes, uma organização comprava servidores, instalava sistemas localmente e mantinha parte do conhecimento técnico dentro de casa. Hoje, grande parte da operação roda como serviço: e-mail como serviço, banco de dados como serviço, ERP como serviço, IA como serviço, segurança como serviço, armazenamento como serviço. Isso melhora a agilidade, mas também transfere poder técnico para quem controla a infraestrutura. Segundo artigo publicado no Outras Palavras, com base em dados de mercado, mais da metade do processamento corporativo brasileiro já ocorre em ambientes de nuvem, enquanto AWS, Microsoft Azure e Google Cloud concentram cerca de 60% a 65% da infraestrutura global de nuvem. (Outras Palavras)

    O mercado brasileiro, por outro lado, é grande o suficiente para sustentar uma estratégia mais ambiciosa. Segundo dados da ABES em parceria com a IDC citados pelo Outras Palavras, o Brasil investiu US$ 58,6 bilhões em TI em 2024, ocupando a 10ª posição mundial em gastos com software, hardware e serviços. No recorte de software e serviços, o mercado movimentou US$ 31 bilhões, e empresas associadas à ABES teriam gerado R$ 103 bilhões em receita e mais de 260 mil empregos diretos em 2024. (Outras Palavras)

    Isso mostra que o Brasil não é um país sem mercado. O problema é transformar mercado consumidor em capacidade produtiva. Temos demanda, temos universidades, temos institutos federais, temos profissionais, temos comunidades de software livre, temos empresas nacionais e temos necessidades reais em municípios, estados, escolas, hospitais, câmaras municipais, tribunais, autarquias e pequenas empresas. O que falta é ligar melhor esses pontos.

    O próprio governo brasileiro já possui iniciativas importantes. O Portal do Software Público Brasileiro define software público como um tipo específico de software livre voltado à modernização da administração pública, podendo ser usado por União, estados, Distrito Federal e municípios sem ônus. O portal informa que há 81 softwares catalogados para compartilhamento e destaca benefícios como redução de custos, independência de fornecedores, transparência e possibilidade de auditoria do código-fonte. (Serviços e Informações do Brasil)

    Também há o movimento da Nuvem de Governo, coordenada pelo MGI em parceria com Serpro e Dataprev. A proposta envolve mais de R$ 1 bilhão em investimentos, com armazenamento sob leis brasileiras, infraestrutura localizada no país e gestão operacional feita por empresas públicas. Segundo o governo, desde junho de 2025 mais de 250 órgãos do Executivo Federal já podiam acessar catálogos de serviços de nuvem oferecidos por Serpro e Dataprev. (Serviços e Informações do Brasil)

    Mas ainda falta uma estratégia mais ampla para formar novos profissionais capazes de criar alternativas reais. Capacitar jovens em programação é importante, mas não basta ensinar apenas frameworks da moda. Soberania digital exige formação em engenharia de software, segurança, infraestrutura, DevOps, banco de dados, computação em nuvem, sistemas distribuídos, UX, licenciamento, interoperabilidade, padrões abertos, integração com sistemas legados e entendimento das regras de contratação pública e privada.

    Aqui está a grande oportunidade para quem está começando. Municípios precisam de sistemas de gestão. Escolas precisam de plataformas educacionais. Pequenas empresas precisam de ERPs acessíveis. Clínicas precisam de prontuários seguros. Cooperativas precisam de sistemas de rastreabilidade. Câmaras municipais precisam de transparência e gestão documental. Órgãos públicos precisam de soluções de atendimento, protocolo, assinatura digital, ouvidoria, controle patrimonial, gestão de frotas, almoxarifado, licitações, contratos, BI e segurança da informação.

    Isso não significa que todo jovem desenvolvedor deva tentar criar “o novo Google brasileiro”. Às vezes, soberania começa em algo muito mais concreto: um sistema SaaS nacional para prefeituras pequenas, uma solução de backup em nuvem hospedada no Brasil, uma plataforma educacional com dados sob controle da escola, um ERP de nicho para pequenos negócios, uma ferramenta de gestão documental com código auditável, um serviço de autenticação compatível com padrões abertos ou uma solução de cibersegurança adaptada à realidade brasileira.

    Também é preciso entender que software nacional não deve ser sinônimo de software ruim, improvisado ou protegido artificialmente. Para competir, precisa ter qualidade, documentação, suporte, segurança, boa experiência de usuário, modelo comercial sustentável e atualização constante. Soberania digital não pode ser apenas discurso patriótico; precisa ser produto bom, contrato bem feito, suporte eficiente e tecnologia confiável.

    O jovem profissional que deseja entrar nesse campo deve estudar tecnologia e mercado ao mesmo tempo. Precisa aprender a programar, mas também precisa entender como vender software, como prestar suporte, como calcular custo de infraestrutura, como proteger dados pela LGPD, como documentar APIs, como manter SLA, como criar contratos SaaS, como usar software livre de forma correta e como participar de ecossistemas de inovação.

    O caminho mais inteligente talvez seja começar por nichos. Em vez de criar uma solução genérica para “todo mundo”, escolha um setor: educação, saúde, agro, gestão pública, energia, comércio, logística, contabilidade, associações, igrejas, ONGs, oficinas, laboratórios, sindicatos, cooperativas ou pequenas indústrias. Estude profundamente as dores desse setor e desenvolva uma solução que resolva problemas reais. É assim que software deixa de ser apenas código e passa a ser infraestrutura econômica.

    A soberania digital brasileira não virá de um único decreto, nem de uma única empresa, nem de uma única plataforma pública. Ela virá da soma entre Estado, universidades, institutos federais, empresas privadas, comunidades de software livre, startups, profissionais autônomos e usuários conscientes. O governo pode induzir, comprar melhor e criar infraestrutura. Mas quem vai construir muitas dessas soluções são os engenheiros, analistas, programadores, arquitetos de software, designers, administradores de banco de dados e especialistas em segurança que estão se formando agora.

    Por isso, discutir soberania digital na DIO é tão importante. A comunidade de tecnologia não pode olhar apenas para vagas em empresas estrangeiras, certificações internacionais ou stacks importadas. Isso tudo tem valor, claro. Mas também precisamos olhar para o Brasil como campo de construção tecnológica. Há problemas reais, dinheiro sendo gasto, demanda reprimida e uma oportunidade histórica de transformar conhecimento em autonomia.

    No fim, soberania digital não é isolamento. É capacidade de escolha. É poder decidir quando usar uma plataforma estrangeira, quando desenvolver uma solução nacional, quando hospedar dados dentro do país, quando exigir código auditável, quando adotar padrões abertos e quando transformar uma compra pública ou privada em desenvolvimento econômico local.

    O Brasil já consome tecnologia em grande escala. A pergunta agora é: vamos continuar apenas alugando o futuro dos outros ou vamos começar a construir parte do nosso?

    Referências

    • Jornal da USP — Setor público gasta bilhões com tecnologia estrangeira ao invés de investir em ciência nacional.
    • Soberania Digital — Painel público de transparência sobre gastos com tecnologia proprietária estrangeira.
    • Governo Digital — Software Público Brasileiro.
    • Governo Digital — Nuvem de Governo e soberania digital.
    • Outras Palavras — Soberania Digital: o papel esquecido das empresas privadas.
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