Arquitetura orientada a produtos: integrações governamentais como prateleira
À medida que organizações ampliam o uso de APIs governamentais, surge um desafio arquitetural recorrente: como escalar integrações com fornecedores como a Dataprev, permitindo reúso entre múltiplos times, sem criar acoplamento excessivo, gargalos organizacionais ou perda de autonomia?
Este artigo propõe uma abordagem baseada em Arquitetura Orientada a Produto, tratando integrações governamentais como produtos internos de plataforma, combinando conceitos de API as a Product, Product Thinking, Internal Developer Platform (IDP) e arquitetura corporativa moderna.
O cenário: múltiplas APIs, um único fornecedor
O catálogo de APIs do Governo Federal, disponível no Conecta GOV, apresenta diversos serviços hospedados na Dataprev, especialmente no domínio de Cadastro do Cidadão, como:
- CadÚnico Serviços – Indicadores Familiares
- CadÚnico Serviços – Dados Familiares
- CadÚnico Serviços
- Benefício de Prestação Continuada (BPC)
Embora atendam a finalidades distintas, esses serviços compartilham características comuns:
- Mesmo fornecedor
- Padrões de segurança específicos
- Autenticação centralizada
- Políticas próprias de disponibilidade e contrato
O modelo tradicional, onde cada time implementa sua própria integração, leva rapidamente a:
- Duplicação de esforços
- Inconsistências técnicas
- Dificuldade de manutenção
- Baixa governança e rastreabilidade
Arquiteturalmente, o problema não está no uso de microserviços, mas em tratar integrações estratégicas como soluções isoladas, quando elas deveriam ser ativos corporativos reutilizáveis.
Integrações como produto interno: mudando o nível da conversa
A proposta é elevar o nível de abstração e tratar a comunicação com a Dataprev como um produto interno, disponível em uma prateleira corporativa.
Esse produto passa a ter características claras:
- Autônomo: ciclo de vida independente dos sistemas consumidores
- Documentado: contratos explícitos e bem definidos
- Versionado: evolução controlada e previsível
- Observável: métricas, logs e rastreabilidade
- Mantido por um time responsável: com roadmap e ownership
Esse é o conceito central de API as a Product: a integração deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser um produto com usuários, valor, governança e evolução planejada.
O Produto Corporativo “Comunicação Dataprev”
Usando o catálogo do Conecta GOV como referência, podemos imaginar a criação de um Produto Corporativo de Integração com a Dataprev, responsável por encapsular o consumo de serviços como CadÚnico e BPC.
Esse produto se posiciona como:
Único ponto de entrada da organização para APIs hospedadas na Dataprev
Ele abstrai:
- Endpoints externos
- Particularidades contratuais
- Gestão de autenticação
- Tratamento de erros e resiliência
Para os times consumidores, o acesso ocorre por meio de APIs internas padronizadas, estáveis e versionadas, sem exposição direta à complexidade do fornecedor governamental.
Importante destacar: Esse produto não implementa regras de negócio dos times. Ele fornece capacidades de integração, permitindo que cada consumidor componha sua própria lógica de acordo com seu contexto.
Reúso sem perder autonomia: contratos como fronteira
Um receio comum é que serviços corporativos reduzam a autonomia dos times. Na prática, quando bem desenhados, eles ampliam a autonomia.
O equilíbrio está em separar claramente responsabilidades.
Centralizado no produto
- Comunicação com a Dataprev
- Gestão de credenciais
- Segurança e compliance
- Observabilidade e auditoria
- Evolução técnica do contrato
Mantido com os times consumidores
- Regras de negócio
- Orquestrações específicas
- Ritmo de entrega
- Decisão de quando migrar versões
O ponto-chave aqui é tratar contratos como fronteira de autonomia. Uma vez publicada, uma versão da API não sofre mudanças incompatíveis. Cada time decide quando e como evoluir, preservando independência.
Evolução versionada e governança sem gargalo
A evolução do produto ocorre por meio de versionamento explícito, permitindo que versões coexistam quando necessário. Isso evita impactos em cascata e elimina a dependência de janelas coordenadas entre times.
A governança deixa de ser operacional e passa a ser estrutural, focando em:
- Padrões técnicos
- Qualidade de contratos
- Segurança e compliance
- Comunicação de depreciações
Esse modelo reduz o atrito organizacional e aumenta a previsibilidade.
Product Thinking aplicado à arquitetura
Ao aplicar Product Thinking, a integração passa a responder perguntas que vão além da técnica:
- Quem são os consumidores internos?
- Qual problema esse produto resolve?
- Como medir valor e adoção?
- Como evoluir sem quebrar quem já usa?
A arquitetura deixa de ser apenas desenho e passa a ser habilitadora de escala organizacional, conectando estratégia, tecnologia e negócio.
Integração como parte de uma Plataforma Interna (IDP)
Esse produto se encaixa naturalmente em uma Internal Developer Platform, oferecendo aos times:
- APIs prontas para consumo
- Documentação padronizada
- Observabilidade integrada
- Governança embutida
- Menor esforço cognitivo
Na prática, o desenvolvedor deixa de “entender como falar com a Dataprev” e passa a consumir uma capacidade da plataforma, focando no que realmente gera valor.
O papel da Arquitetura Corporativa
Nesse modelo, a Arquitetura Corporativa atua como:
Guardiã dos padrões, não porteira das entregas
Suas responsabilidades incluem:
- Definir padrões técnicos e arquiteturais
- Garantir coerência e sustentabilidade
- Facilitar governança e evolução
- Medir adoção e orientar melhorias
O que ela não faz:
- Aprovar cada uso individual
- Implementar regras de negócio
- Centralizar decisões de produto
Esse reposicionamento fortalece a arquitetura como habilitadora, não como obstáculo.
Conclusão
Tratar integrações governamentais como produtos internos de prateleira é uma decisão arquitetural estratégica. No contexto da Dataprev e do catálogo de APIs do Governo, essa abordagem permite escalar o consumo, reduzir riscos, melhorar governança e, ao mesmo tempo, preservar a autonomia dos times.
Mais do que integrar sistemas, a arquitetura passa a organizar capacidades, criando uma base sólida para inovação contínua.
Arquitetura moderna não escolhe entre autonomia e governança — ela constrói as duas por meio de produtos bem desenhados, contratos claros e responsabilidade compartilhada.
Referências
- Gov.br Conecta - Catálogo de APIs: https://www.gov.br/conecta/catalogo
- CadÚnico Serviços - APIs Dataprev
- Benefício de Prestação Continuada (BPC) - API Dataprev
- Principles of Product Management for Platform Engineering
- Team Topologies: Organizing Business and Technology Teams for Fast Flow
Sobre a autora
Atualmente, sou Arquiteta de Soluções Sênior no Banco Bradesco, atuando em iniciativas de arquitetura de soluções, integração de sistemas e inovação tecnológica, com foco em escalabilidade, governança e habilitação da autonomia dos times.
Tenho experiência sólida em ambientes corporativos complexos, integrações críticas e modernização de arquiteturas, atuando como ponte entre tecnologia, negócio e estratégia organizacional.
Perfil Linkedin: https://www.linkedin.com/in/eveline-matos-silva-a2a18526/



