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Paulo Santos14/01/2026 16:49
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As deficiências no aprendizado de programação em C# causadas pelo uso precoce de ORMs

    Introdução

    Nos últimos anos, o C# consolidou-se como uma das principais linguagens para o desenvolvimento de aplicações corporativas. Paralalelamente, o uso de ORMs (Object-Relational Mappers), em especial o Entity Framework, tornou-se praticamente um padrão no ensino e na prática profissional. Embora essa popularização tenha trazido ganhos significativos de produtividade, ela também expôs um problema recorrente: a formação de desenvolvedores que sabem utilizar abstrações, mas não compreendem os fundamentos que essas abstrações ocultam.

    Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre como o ensino prematuro do Entity Framework impacta negativamente o aprendizado de desenvolvedores junior, especialmente quando estes são expostos a cenários mais complexos, fora do “caminho feliz” apresentado em cursos introdutórios.

    O problema do ensino baseado apenas em abstrações

    A maioria dos cursos de C# e desenvolvimento backend ensina o acesso a dados diretamente por meio de um ORM, sem passar pelos conceitos fundamentais de comunicação com bancos de dados relacionais. O aluno aprende rapidamente a:

    • Criar um DbContext
    • Mapear entidades
    • Executar consultas com LINQ
    • Persistir dados com métodos como Add, Update e SaveChanges

    Entretanto, conceitos essenciais acabam sendo negligenciados ou completamente ignorados, como:

    • Abertura e fechamento explícito de conexões
    • Gerenciamento de transações
    • Execução de comandos SQL puros
    • Joins, subqueries e impactos de performance
    • Diferença entre operações síncronas e assíncronas no acesso a dados

    O resultado é um profissional que “faz funcionar”, mas não entende como funciona.

    O choque com cenários reais e complexos

    Esse déficit conceitual torna-se evidente quando o desenvolvedor junior passa a atuar em ambientes corporativos mais complexos. Um exemplo comum é o de aplicações que:

    • Utilizam múltiplos bancos de dados
    • Operam com hosts diferentes
    • Fazem uso de DBLinks ou integrações entre bases distintas

    Nesses contextos, o Entity Framework frequentemente apresenta limitações ou comportamentos inesperados. Conflitos de contexto, dificuldades de mapeamento e problemas de transação distribuída passam a surgir. Para quem nunca precisou abrir uma conexão manualmente ou escrever uma consulta SQL de forma consciente, o diagnóstico e a correção desses problemas tornam-se tarefas extremamente difíceis.

    O problema não está no Entity Framework em si, mas no fato de ele ter sido apresentado como solução universal antes que o aluno tivesse domínio da base.

    A comunicação nativa do C# com bancos de dados

    Antes mesmo de discutir ORMs ou micro ORMs, é importante lembrar que o C# possui, de forma nativa, mecanismos robustos para comunicação direta com diversos bancos de dados por meio do ADO.NET. Classes como SqlConnection, SqlCommand, OracleConnection, NpgsqlConnection e DbDataReader permitem ao desenvolvedor:

    • Abrir e gerenciar conexões explicitamente
    • Controlar transações de forma consciente
    • Executar comandos SQL parametrizados
    • Trabalhar com múltiplos bancos e provedores distintos

    Essa abordagem, embora mais verbosa, expõe de maneira clara o funcionamento real do acesso a dados. É nela que conceitos fundamentais são consolidados: ciclo de vida da conexão, impacto de locks, controle transacional e tratamento adequado de exceções.

    Nesse ponto surge uma reflexão incômoda, porém necessária: ao concluir um curso de C#, quantos alunos seriam capazes de implementar um CRUD simples sem recorrer a nenhum ORM ou micro ORM?

    A resposta, na maioria dos casos, é preocupante. Isso evidencia que o foco do ensino está na ferramenta, e não no domínio do mecanismo subjacente.

    O papel do Dapper como alternativa viável

    Nesse cenário, o Dapper surge como uma alternativa interessante. Classificado como um micro ORM, ele oferece:

    • Mapeamento simples de objetos
    • Execução direta de SQL
    • Alto desempenho
    • Menor nível de abstração

    O Dapper força o desenvolvedor a compreender a consulta que está sendo executada, pois ela é escrita explicitamente. Ao mesmo tempo, elimina parte do trabalho repetitivo de mapeamento manual.

    Ainda assim, o Dapper raramente é apresentado em cursos introdutórios. Em muitos casos, sequer é mencionado. Isso levanta um questionamento importante: se ele representa um meio-termo entre o acesso totalmente manual e um ORM completo, por que não é utilizado como ferramenta didática?

    Por que os cursos começam pelo ORM?

    A resposta mais comum está relacionada à rapidez na entrega de resultados. Ensinar Entity Framework permite que o aluno construa aplicações funcionais em pouco tempo, o que:

    • Gera sensação imediata de progresso
    • Aumenta o apelo comercial do curso
    • Reduz a complexidade inicial do conteúdo

    No entanto, esse atalho cobra seu preço no médio e longo prazo. Ao pular etapas fundamentais, o processo de aprendizado fica incompleto. O aluno aprende a usar ferramentas, mas não desenvolve raciocínio técnico suficiente para adaptar-se a contextos diferentes daqueles apresentados em aula.

    O dilema: produtividade versus formação sólida

    O dilema central, portanto, não é escolher entre usar ou não um ORM, mas quando e como utilizá-lo no processo de aprendizagem.

    Ensinar primeiro os fundamentos — conexão com banco, SQL, transações e controle explícito — e só depois introduzir um ORM permitiria ao desenvolvedor compreender:

    • O que está sendo abstraído
    • Quais problemas o ORM resolve
    • Quais problemas ele pode causar

    Sem essa base, o ORM deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma dependência.

    Conclusão

    O uso do Entity Framework é válido, consolidado e extremamente útil em diversos cenários. Contudo, sua adoção precoce no ensino de C# contribui para a formação de profissionais com lacunas importantes em fundamentos de acesso a dados.

    Repensar a ordem em que essas tecnologias são apresentadas — incluindo alternativas como o Dapper — é essencial para formar desenvolvedores mais preparados, críticos e capazes de lidar com a complexidade real do mercado.

    Mais do que ensinar ferramentas, é preciso ensinar conceitos. O restante passa a ser apenas uma questão de escolha técnica.

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