O mercado de tecnologia no Brasil virou uma contradição ambulante
Existe algo profundamente errado no mercado de tecnologia no Brasil e quem está tentando entrar ou se manter nele já percebeu.
Nunca se falou tanto em “falta de profissionais de TI”, “apagão de talentos” e “mercado aquecido”. Ao mesmo tempo, as vagas estão cada vez mais escassas, os processos seletivos mais longos e as exigências mais irreais. O resultado é um paradoxo:
👉 salários de júnior com exigências de sênior.
Não é percepção. É estrutura.
A mentira do “mercado aquecido”
O mercado de tecnologia não acabou, mas também está longe da fantasia vendida nos últimos anos. Ele cresce, sim porém de forma desigual, concentrada e excludente.As empresas dizem que faltam profissionais, mas o que realmente falta são profissionais prontos, experientes, baratos e imediatos. Não existe disposição real para formar talentos. O discurso da escassez serve mais como justificativa para:
- inflar descrições de vaga
- reduzir salários
- sobrecarregar quem entra
Hoje, uma vaga “júnior” pede:
- 2 a 3 anos de experiência
- domínio de múltiplas stacks
- conhecimento em cloud, DevOps, IA, metodologias ágeis
- soft skills de liderança
Tudo isso para pagar um salário que, muitas vezes, não acompanha nem a responsabilidade, nem a complexidade técnica.
Requisitos irreais viraram regra
As descrições de vaga deixaram de ser um retrato do cargo e viraram uma lista de desejos. O problema é que essa lista não é tratada como opcional no processo seletivo.
O filtro automático elimina bons candidatos. O RH rejeita perfis promissores. E o gestor reclama que “ninguém é bom o suficiente”.
O mercado criou um cenário onde:
- o iniciante não consegue entrar
- o pleno já está sobrecarregado
- o sênior migra para fora (ou vira PJ precarizado)
É um ciclo vicioso.
Globalização e fuga dos profissionais experientes
Profissionais realmente qualificados não ficam presos ao mercado nacional. Eles são absorvidos por empresas estrangeiras, muitas vezes ganhando em dólar, com menos burocracia e mais valorização técnica.
O efeito colateral é óbvio:
- menos seniors disponíveis no Brasil
- mais pressão sobre quem fica
- empresas tentando “economizar” contratando abaixo do nível necessário
E adivinha quem paga a conta? Quem está tentando crescer na carreira.
A IA não acabou com as vagas, ela aumentou a régua.
A Inteligência Artificial não eliminou o trabalho em tecnologia, mas aumentou brutalmente o nível de exigência. Agora não basta saber o básico. Espera-se que o profissional:
- use IA
- entenda IA
- produza mais com menos
- entregue mais rápido
Tudo isso sem que o salário acompanhe essa escalada de complexidade.
O problema não é falta de talento. É falta de estratégia.
O Brasil não sofre por ausência de gente capaz. Sofre por:
- empresas que não investem em formação
- recrutamento desconectado da realidade
- expectativas desalinhadas com orçamento
- romantização da sobrecarga
Enquanto isso, o discurso segue o mesmo: “o mercado está aquecido”.
Está aquecido para poucos.
Conclusão: quem entra hoje precisa jogar outro jogo
Entrar no mercado de tecnologia em 2026 exige muito mais do que boa vontade ou diploma. Exige:
- portfólio real
- projetos práticos
- networking estratégico
- resiliência emocional
E, principalmente, clareza: não é um mercado fácil, nem justo, nem meritocrático como foi vendido.
A tecnologia continua sendo uma área promissora mas não para quem acredita em propaganda.
É para quem entende o jogo, se posiciona bem e não aceita passivamente exigências absurdas travestidas de oportunidade.



