Por que construir um datacenter no Brasil é tão difícil?
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Energia, impostos, clima, CAPEX, OPEX e os riscos que quase ninguém menciona
Se no primeiro texto falamos que os datacenters são a infraestrutura invisível da transformação digital, neste segundo precisamos encarar a realidade: construir e operar um datacenter no Brasil é um desafio técnico, financeiro e estratégico de alto risco.
Não é exagero dizer que, no Brasil, um erro de projeto pode inviabilizar uma operação inteira.
Enquanto o discurso público fala em “cloud”, “IA” e “inovação”, quem está por trás de um datacenter lida diariamente com energia instável, impostos complexos, clima hostil, custos operacionais crescentes e riscos sistêmicos.
Vamos aos fatos.
⚡ Energia elétrica: o coração (e o maior problema) de um datacenter
Datacenter não funciona sem energia estável, previsível e redundante.
No Brasil, esse é o primeiro grande obstáculo.
🔌 Consumo extremo e contínuo
Um datacenter médio consome energia 24x7, sem variação de carga como indústrias tradicionais. Não existe “horário de pico reduzido”. O consumo é constante.
- Racks modernos: 10 kW a 30 kW por rack
- Ambientes de IA: facilmente 40 kW+ por rack
- Qualquer instabilidade = risco direto de downtime
⚠️ O paradoxo brasileiro
O Brasil tem uma matriz relativamente limpa (hidrelétricas), mas sofre com:
- Oscilações regionais
- Gargalos de transmissão
- Dependência de térmicas em períodos críticos
- Tarifas elevadas para consumidores de alta demanda
📌 Resultado: energia no Brasil é cara e imprevisível para datacenters.
🔋 Redundância obrigatória: UPS, baterias e geradores
Nenhum datacenter sério depende apenas da concessionária.
Isso implica:
- UPS em configuração N+1 ou 2N
- Bancos de baterias (chumbo-ácido ou lítio)
- Geradores a diesel de alta capacidade
- Contratos de fornecimento de combustível
- Testes periódicos (load test)
💰 Tudo isso não gera receita direta, mas consome CAPEX e OPEX agressivamente.
👉 Em muitos projetos, energia e backup energético representam mais de 40% do investimento inicial.

🌡️ Clima: o inimigo silencioso da eficiência
O Brasil não foi “feito” para datacenters do ponto de vista térmico.
🌴 Temperatura média elevada
- Climas quentes reduzem a eficiência do resfriamento
- Free cooling é limitado em muitas regiões
- Climatização consome quase tanto quanto TI
❄️ Refrigeração de precisão
Datacenters exigem:
- CRAC / CRAH
- Chillers
- Corredores quente/frio
- Contenção térmica
- Sensoriamento constante
📉 Quanto mais quente o ambiente externo, maior o PUE (Power Usage Effectiveness) — e pior o custo operacional.
💰 CAPEX: o custo de entrar no jogo
Construir um datacenter não é projeto para aventureiros.
CAPEX típico inclui:
- Terreno estrategicamente localizado
- Subestação elétrica dedicada
- Infraestrutura civil reforçada
- Sistemas elétricos redundantes
- Sistemas mecânicos (HVAC)
- Segurança física (nível militar em alguns casos)
- Cabeamento estruturado e óptico
- Sistemas de monitoramento e automação
📊 Um datacenter de médio porte facilmente ultrapassa centenas de milhões de reais antes de gerar o primeiro real de receita.
🔄 OPEX: o custo de continuar vivo
Depois de construído, começa o verdadeiro desafio: manter o datacenter funcionando.
Principais custos recorrentes:
- Energia elétrica (principal vilão)
- Manutenção de UPS, baterias e geradores
- Equipe técnica 24x7
- Contratos de SLA
- Segurança física
- Seguros
- Licenças e compliance
- Atualização tecnológica constante
📌 Diferente de software, datacenter envelhece fisicamente.
Hardware, baterias e sistemas mecânicos têm vida útil limitada.
🧾 Impostos e burocracia: um labirinto brasileiro
Outro fator crítico é o ambiente regulatório.
Datacenters no Brasil lidam com:
- ICMS sobre energia
- Impostos sobre importação de equipamentos
- Complexidade tributária entre estados
- Licenciamento ambiental
- Normas municipais, estaduais e federais
📉 Muitas empresas globais relatam que o custo fiscal brasileiro impacta diretamente a viabilidade do projeto.
🚨 Riscos reais (e pouco discutidos)
Construir um datacenter no Brasil envolve riscos que raramente aparecem em apresentações de marketing:
- Falhas elétricas regionais
- Atrasos em licenças
- Dependência de fornecedores específicos
- Falta de mão de obra altamente especializada
- Eventos climáticos extremos
- Pressão por sustentabilidade sem incentivos claros
👉 Um datacenter não pode “parar para corrigir depois”.
Tudo precisa funcionar desde o primeiro dia.
🧠 Por que, mesmo assim, as empresas continuam investindo?
Porque o Brasil é:
- Um mercado gigante
- Um hub regional estratégico
- Um país com demanda crescente por dados, IA e serviços digitais
- Um território onde latência importa
Ou seja: o risco é alto, mas ficar fora custa ainda mais caro.
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Texto 1
🔜 No próximo texto…
Texto 3, vamos entrar dentro de um datacenter:
Arquitetura física e lógica, camadas técnicas, segurança, redes, energia e como tudo isso se conecta para manter a internet de pé.



